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Intelectu no 7 - Outubro de 2002
artigos

Maçãs e Filosofia
Um estudo não psicológico, não estatístico e não científico sobre a natureza da Filosofia

Jônadas Techio


Resumo:

Partindo da análise de um presuntivo problema filosófico, que tem a ver com a função dos critérios - regras de uso - no estabelecimento da identidade dos conceitos, tento estabelecer algumas teses sobre o campo de atuação da Filosofia e seu método. Para tanto traço uma distinção entre funções normativas e descritivas das proposições, que serve de ferramenta para pensar nos diferentes papéis da Ciência e da Filosofia. O resultado alcançado poderia ser encarado como uma visão wittgensteiniana da Filosofia.

I - Objetivos e apresentação do "caso maçã"

Uma das questões mais inquietantes da Filosofia, para a surpresa de alguns não filósofos, é a que diz respeito à sua própria natureza. Até mesmo os estudiosos e interessados em Filosofia costumam sentir um certo desconforto, quando, em seus momentos reflexivos, chegam a pensar não saberem exatamente o que estão fazendo. O que pretendo fazer aqui é esboçar um tratamento que poderia denominar de wittgensteiniano (ou seja, derivada da obra do próprio Wittgenstein, e também de alguns outros filósofos que, digamos assim, beberam desta fonte, como John Hyman, Hans-Johann Glock, Peter Hacker, etc.) (1) sobre a natureza da Filosofia.

Para dar início a esta empreitada, gostaria de introduzir um caso fictício, do qual desejo extrair algumas implicações sobre o campo de atuação da Filosofia, e seu método. O caso é o seguinte: tomemos por dado que possuímos critérios adequados para a aplicação de um conceito, digamos, 'fruta'. Bem, tal conceito certamente se aplica a um conjunto bem amplo de objetos, que possuem algumas características básicas, tais como ser comestível, ser extraído de vegetais, conter sementes, etc. Podemos, a partir do conjunto das frutas, obter o subconjunto das 'maçãs'. Estas, além de possuírem as características acima, possuem algumas outras, que as diferenciam das demais frutas, por exemplo, serem vermelhas ou verdes, um pouco ácidas, doces, ter tal e tal textura, etc.

Obviamente um biólogo ficaria muito insatisfeito com minha descrição, que certamente lhe pareceria insuficiente e vaga. Mas, para os meus fins, penso que é possível dar por incontroversas tais características, e que, se não forem necessárias e suficientes para a aplicação do conceito, que se imagine mais algumas. O importante é assegurar-nos de que tais critérios funcionem, de forma inequívoca.

Feitas tais concessões, nos deixemos levar um pouco pela imaginação, a um futuro não muito distante, no qual se encontrem disseminadas, de forma muito mais intensa do que atualmente, as teorias biológicas - ou, mais especificamente, genéticas - na esfera do senso comum. Bem, neste futuro todas as pessoas possuem em casa um aparelhinho multiuso, que, entre tais multiusos, pode servir para fazer um teste de DNA em qualquer coisa orgânica.

Dado tal pano de fundo, penso que não mais soaria contra-intuitivo que nossos critérios para a partição do conjunto de objetos biológicos pudessem mudar, passando a ser introduzidas considerações baseadas exatamente na teoria genética (2) - o que implicaria que poderíamos usar nosso aparelhinho multiuso para determinar se um objeto é ou não uma fruta. Poderíamos ainda reduzir tal conjunto, e chegar ao subconjunto das maçãs, que seriam aqueles objetos com tal e tal DNA específico. Para manter minha argumentação subseqüente livre de uma possível objeção, cabe deixar claro que, neste presuntivo futuro de que falo, os critérios que hoje utilizamos para aplicar os conceitos de 'fruta' e 'maçã' (que se baseiam em estereótipos) ainda correriam paralelos aos novos critérios genéticos, que se encontrariam ainda em fase de implantação. A importância de tal ressalva deverá tornar-se saliente na seqüência.

Tudo corria bem nesse futuro não muito distante, até que certo dia uma pessoa se apresenta para o mundo inteiro dizendo que fez uma descoberta incrível: há maçãs que são ovaladas, maiores que as normais, com uma textura muito diferente, mais suculenta, com um tipo de casca espinhosa, coroa na parte superior, etc. "Descobriu-se uma nova espécie de maçã!" seria a notícia dos periódicos virtuais biológicos. O nome? Bem, acho que ele é sugestivo: é a "maçãnis-abacaxisis" (ou seja, é uma fruta igualzinha ao que todos nós hoje estamos preparados para chamar de abacaxi, mas com uma diferença: tem exatamente o mesmo DNA que maçãs!).

Serei breve na apresentação dos possíveis problemas que surgiriam neste caso, e o farei elaborando algumas questões:
1) Podemos confiar na legitimidade de tal descoberta? Se a resposta for afirmativa, do que depende tal legitimidade?
2) Ainda considerando-se que a descoberta seja legítima, estaríamos ainda tratando do mesmo conceito de maçã, ou teríamos passado a utilizar um conceito diferente (maçã-abacaxi)?
3) Se tal caso servisse para demonstrar que os conceitos mudaram, isso não poderia abalar nossa confiança no uso de todos os conceitos que possuímos, fazendo com que duvidássemos de sua, digamos assim, "correção"?

II - Possíveis respostas, e suas respectivas críticas

Na sequência pretendo considerar algumas respostas que considero falsas, e o que é mais importante, reputo como impossíveis de serem dadas pelas áreas da investigação humana que as avançam (que tais áreas não possam dar esta resposta é uma questão de direito, não de fato).

A primeira opção seria encomendar uma pesquisa de opinião pública, e, através de dados estatísticos, decidir quais são os "verdadeiros" critérios para aplicar o conceito de maçã. Mas, será mesmo possível confiar decisões criteriais tão importantes a condições tão contingentes e mutáveis quanto, digamos assim, o ânimo da população em fazer uso de certo conjunto de critérios ou de outro? O que quero dizer é que as condições psicológicas não podem ser necessárias nem suficientes para se determinar a propriedade dos critérios de uso de nossos conceitos. Se o fossem, isso implicaria exatamente no que temíamos em relação à questão 3): nossos critérios poderiam ficar mudando o tempo todo, e nunca teríamos certeza sobre nenhum uso de nossos conceitos.

Aposto que muitos se sentiriam mais tranqüilos deixando tal responsabilidade nas mãos dos cientistas, que poderiam responder a tais questões através de investigação empírica, baseada em suas teorias. Quanto a estes, peço desculpas por ter que inquietá-los um pouco, pois, apesar de eu também confiar muito na ciência, penso que os cientistas não estariam, neste caso, em posição melhor para resolver o problema. Explico: quando estamos lidando com proposições empíricas, certamente a ciência tem papel preponderante, pois é ela que pode fornecer os melhores meios de experimentação para verificar hipóteses. Mas não é uma questão empírica decidir-nos por tal ou tal conjunto de critérios (e muito menos são eles hipóteses). Ou seja, não há nenhum experimento que possa provar que um certo conjunto de critérios é um bom conjunto, ou o conjunto correto, por um motivo muito simples: a propriedade dos critérios é pressuposta para se fazer quaisquer experimentações. Os experimentos no máximo servem para aplicar estes critérios pré-estabelecidos e pressupostos (e o aparelho multiuso de que tratei acima é exatamente um exemplo deste tipo de aplicação de critérios). A legitimidade dos critérios deve ser estabelecida, portanto, de alguma outra maneira.

Poder-se-ia então tentar recorrer a célebres metafísicos, estudando suas obras, e ver o que estes teriam a nos dizer. Talvez Aristóteles nos aconselhasse a perscrutar a essência das maçãs, em busca de uma resposta. Mas, diria eu, como é que posso me atirar em uma investigação ontológica das maçãs, se estou em dúvida para escolher algo no mundo que seja uma maçã? Já Kant talvez nos dissesse que é um juízo analítico que todas as maçãs são de tal e tal jeito, ou de tal e tal outro. Ou seja, estaria contido na noção do sujeito (o novo espécime de fruta descoberto) se a ele se aplica o predicado em questão (ser uma maçã). Mas, se isso fosse assim tão fácil, de onde proveriam nossas dificuldades? Pois afinal, nosso problema é exatamente saber se o predicado "maçã" se aplica ou não à nova fruta! (3)

III - Um pouco de Filosofia (ou: incursão ao mundo dos conceitos)

Talvez muitas outras tentativas pudessem ser apresentadas. Mas, com as que até aqui foram avançadas, penso que já se pode extrair algo de filosoficamente importante, algo que diz respeito à relação entre a mudança de nossos critérios e a mudança de nossos conceitos. Antes disso, tentemos clarificar um pouco o status do problema que temos em mãos. Para isso, pensemos agora num caso real, o do ouro. Até o surgimento e disseminação da físico-química moderna, nossos critérios para se definir o que era ouro eram basicamente observacionais, sem necessidade de auxílio de nenhuma complicada teoria científica. Assim, morder, olhar, pesar, etc., eram procedimentos legítimos e suficientes para decidir se algo era ou não era ouro.

Dados tais critérios, o conjunto das coisas que eram ouro tinha uma extensão n. Com a mudança em favor dos critérios sobre número atômico, etc, o conjunto passou a ter tamanho n-1, pois não podemos mais, à luz de tais critérios, vender "ouro de tolo" para as pessoas. O que se pode inferir disso é que houve uma mudança conceitual. Mas o que estaria por trás de minha inferência? Parece ser a consideração, bastante intuitiva e plausível, segundo a qual X é um conceito idêntico a Y se, e somente se, a extensão de X = extensão de Y (ou seja, ter a mesma extensão é condição necessária e suficiente para haver identidade entre dois conceitos).

Por simples procedimentos lógicos, poderíamos então obter um princípio geral que diria mais ou menos o seguinte: "Conceitos mudam sua identidade somente quando há alteração da extensão dos mesmos". Chamemos este princípio de "Princípio Maçã". Mas, poder-se-ia perguntar, o que se daria em casos nos quais aparentemente existem dois diferentes conceitos que possuem exatamente a mesma extensão? Ou seja, será que, ao aceitar o "Princípio Maçã", não teremos também que aceitar, se quisermos ser consistentes, que em tais casos existe apenas um conceito?

A melhor forma de resolver este problema seria examinando um exemplo. Tomemos para análise um outro exemplo bastante usado em Filosofia: o conjunto de pessoas que possuem rins tem exatamente a mesma extensão (ao menos em princípio) do conjunto de pessoas que tem coração. Se o "Princípio Maçã" estiver correto, e ter a mesma extensão é mesmo condição necessária e suficiente para ser o mesmo conceito, teríamos que aceitar como conseqüência que o conceito 'pessoas com coração' é o mesmo que 'pessoas com rins', o que é francamente absurdo. Além disso, se deixássemos a responsabilidade da mudança na identidade dos conceitos meramente à mercê da mudança de sua extensão, poderíamos ser alvos de uma objeção imediata, segundo a qual o fato de haver uma mesma extensão em casos de diferentes intensões poderia ser uma mera contingência. Ou seja, é mera contingência que 'pessoas que possuem coração' tem a mesma extensão que 'pessoas que tem rins', e isso não pode ter relevância na explicação da identidade dos conceitos.

Voltemos ao caso do ouro. Se examinarmos bem o que foi dito até aqui, veremos que nos deixamos levar por um argumento falacioso, pois, na verdade, o que tal caso apresenta é apenas a suficiência da mudança de extensão para a mudança na identidade do conceito, e nada diz sobre sua necessidade - mas esta é a condição que vinha nos incomodando. Haverá como provar por alguma outra via que tal condição é também necessária? Penso que não, e o que está por trás de eu assim pensar é o meu conceito de 'conceito'. Mais especificamente, penso que o conjunto de critérios que utilizamos para a aplicação de conceitos determina, por si só, sua identidade (ou seja, seu sentido) - e é exatamente por isso que a equivalência entre renatos e cordatos parece tão absurda, pois nossos critérios para se dizer de uma pessoa que tem coração certamente são muito distintos dos que utilizamos para atribuir a posse de rins a um sujeito.

Isso implica que a extensão dos conceitos, que parecia jogar papel importante quanto à sua identidade, na verdade não tem relevância, pois mesmo nos casos nos quais se dá mudança de extensão (como no caso do ouro), o que está por trás da afirmação de que houve mudança na identidade do conceito são considerações sobre as regras que governam o uso daquele conceito. Em suma, uma mudança na extensão por si só atesta uma mudança de identidade, mas isso não por "méritos próprios", e sim por causa da mudança criterial que lhe é logicamente anterior. Portanto, uma não mudança na extensão será irrelevante para mudança de identidade.

Assim, posso reformular o "Princípio Maçã", exposto acima, para que se acomode ao meu conceito de 'conceito'. Ele ficaria mais ou menos assim: "Conceitos mudam sua identidade quando se passa a utilizar um novo conjunto de critérios de aplicação" (chamemos essa nova formulação de "Neo-Princípio Maçã"). Em última instância, o que estou defendendo aqui é que falar em mudança de um conceito equivale a dizer que seu sentido mudou, e, se minha distinção estiver correta, o sentido dos conceitos muda se seus critérios mudam, independentemente disso implicar mudança de extensão, como se essa fosse uma mudança "mais forte".

IV - Novas respostas, e pistas do que seja Filosofia

Assim, voltando ao "caso maçã", e fazendo uso de minhas críticas anteriores mais esta pequena incursão filosófica ao mundo dos conceitos, penso que posso responder às questões colocadas antes. Para a possível surpresa do leitor, afirmo que as questões podem e devem ser respondidas em conjunto, pois se interconectam. Assim, só poderei saber se tal descoberta é legítima, se puder provar que os critérios utilizados pelo aparelho eram bons, e vice-versa. E se estes novos critérios são mesmo bons, e substituem os antigos, baseados em estereótipos, isso já tem por conseqüência que os conceitos mudaram (dada a aceitação do Neo-Princípio Maçã).

Como disse, a escolha de um conjunto de critérios não depende de considerações estatísticas, nem psicológicas, nem de investigação empírica da ciência, nem muito menos metafísicas (no sentido do termo que utilizei acima). O máximo que gostaria de conceder a tais considerações é que elas podem ser responsáveis por trazer à tona problemas conceituais, tais que, para sua resolução, exijam uma mudança criterial (e, ipso facto, conceitual). Ou seja, elas podem originar problemas que nos obriguem a repensar nosso uso de um conceito (como foi o caso do ouro), ou, em última instância, que nos obriguem a repensar nossa própria estrutura conceitual.

Uma tal reflexão conceitual pode se dar internamente às próprias ciências especializadas, caso no qual elas poderão propor uma reestruturação teórica - o que com certeza é diferente de uma investigação empírica, que já pressupõe uma estrutura teórica. E isso de forma alguma torna inconsistente minha afirmação anterior, segundo a qual as áreas de conhecimento tratadas não poderiam responder às questões colocadas, pois, naquele momento, as estava tomando qua atividades empíricas.

Em última instância, a decisão sobre o uso de dado conjunto de critérios em detrimento de outro, pelo menos no que concerne às áreas de investigação científica, pode ser considerada pragmática, em relação ao seu fim. Ou seja, o que influencia em tal decisão são as vantagens que cada conjunto criterial pode oferecer-nos, por exemplo, permitindo previsões mais precisas e seguras, ou ajustando-se melhor a uma dada teoria científica, ou, como no caso do ouro, em não mais poder se enganar as pessoas. Mas, com relação à natureza do problema, podemos caracterizá-lo legitimamente como filosófico, no sentido de ser um problema conceitual, que depende do estabelecimento de normas de representação para ser resolvido. Estas, sendo aceitas, irão gerar conhecimento necessário, e a priori, i.e., independente de fatores empíricos (e neste ponto uma boa compreensão da personagem apresentada acima, Immanuel Kant, poderia vir bem a calhar).

Voltemos ao caso da nova espécie de maçã. Haverá alguma vantagem em utilizarmos os novos critérios, e aceitar que um certo tipo do que pareceria um abacaxi entrasse no conjunto das maçãs? À primeira vista poderia parecer que a resposta é negativa. Mas, se pensarmos bem, isso poderia comprometer toda uma teoria científica, a Genética, e, obviamente, os biólogos do futuro não gostariam nada disso. Certamente não quero aqui dar uma de futurólogo, apenas estou tentando apresentar possíveis conseqüências, que permitam refletir nas coisas que falei há pouco.

Digamos que é um bom motivo para aceitar os novos critérios que disso dependa a teoria Genética. Assim, aceitando-se o Neo-Princípio Maçã, segue-se imediatamente que nosso conceito terá mudado. Será isso suficiente para suscitar aquelas dúvidas céticas com respeito à nossa certeza no uso dos conceitos (questão 3)? Penso que não, pois, em primeiro lugar, a possibilidade de tal mudança, longe de ser algo indesejável, é algo que permite avanço científico. Além do mais, no mundo real, estes tipos de mudanças são muito pouco freqüentes, e, na maioria das vezes, ocorre dentro do âmbito das próprias áreas especializadas, e não chega a afetar nossa estrutura conceitual ordinária, pois encaramos os novos conceitos como técnicos, como no caso de 'espaço-tempo', para a física relativística (ao menos deveríamos encará-los assim, mas isso é assunto para outra ocasião).

V - Algumas conclusões sobre a natureza da Filosofia (contrapondo-a com Ciência)

O tipo de situação apresentado até aqui é algo que por vezes pode desencadear muitas confusões, principalmente entre os filósofos, que tão facilmente se deixam "enfeitiçar" pela linguagem, como diria Wittgenstein. Um bom exemplo disso é a questão (3) acima, que parece ser um primeiro passo em direção ao ceticismo. Mas, se a Filosofia for entendida da forma correta, e posta em prática, acho que podemos impedir tais confusões. Afinal, que forma é essa? Bem, já dei algumas pistas acima, quando tratei das proposições normativas de que ela trata. A ciência, essencialmente, é exatamente aquela área do conhecimento humano responsável por descrever o mundo natural, e tal descrição pressupõe sempre normas de representação. Mas ela pode, por vezes, estabelecer novas normas, dependendo de seus propósitos. O que cabe à Filosofia é, de direito, e minimamente, deixar claro qual é a função das proposições utilizadas pelas diferentes áreas de investigação humanas, ou seja, se são normas ou descrições.

Um enunciado descritivo, como o próprio nome diz, não pode modificar o significado dos termos (em última instância, não pode mudar a identidade dos conceitos), por já os pressupor. Por este motivo descarta-se da Ciência (enquanto investigação empírica) a possibilidade de responder aos problemas expostos na seção I, que são conceituais. A Filosofia também se diferencia da Ciência por ser a área que trata de necessidades, e não contingências (o que, na verdade, é equivalente ao que disse há pouco), e o máximo que a Ciência pode nos mostrar são necessidades físicas, que se devem a generalizações indutivas, regularidades, ou mesmo coerência com dada teoria científica. Mas há um outro tipo de necessidade, que é legitimamente filosófica, ou lógica, por derivar das normas de representação, definidoras do significado de nossos conceitos.

E quanto à Metafísica, a "verdadeira essência da Filosofia", diriam alguns, como é que eu pude tirá-la da lista? Bem, certamente eu sou uma das pessoas que mais aceita ser a Metafísica o cerne da Filosofia, mas isso depende da interpretação do termo. Se interpretado como sendo 'o estudo das condições essenciais últimas ou das necessidades hiperfísicas do mundo', então penso que em nada pode nos ajudar, além de originar frases muito elegantes e difíceis. Mas, se encararmos a Metafísica como o estudo das necessidades linguísticas (gramaticais, conceituais), necessidades estas que se impõe devido a nossas normas de representação, e não da forma lógica inefável do mundo, então sim, ela é redimida, e se torna bastante "útil", no sentido de poder impedir confusões conceituais - que, ao contrário do que possa parecer, de modo algum são confusões que só ocorrem a filósofos; qualquer um de nós, quando entregue a uma reflexão mais cuidadosa dos conceitos que utiliza, pode ser vítima deste tipo de ilusão.

Como é notório, há uma certa nebulosidade na delimitação e distinção dos problemas que são legitimamente filosóficos, dos problemas que podemos chamar de teóricos (ou seja, problemas que são conceituais mas que surgem na elaboração das teorias científicas). Este é certamente um ponto muito complexo, e que poderia merecer tratamento isolado e cuidadoso em outra ocasião. De momento, contentar-me-ei em esboçar apenas uma considerações inicial que, penso eu, é indispensável e muito importante para se estabelecer tal distinção: a diferença que existe entre problemas conceituais teóricos e filosóficos (ou metafísicos) é uma questão quantitativa, e não qualitativa - ou seja, há uma diferença de grau, e não de natureza, entre estes problemas. Assim, pode-se dizer que a Filosofia se preocupa com questões mais básicas, que tem a ver com confusões no uso de conceitos extremamente gerais, como substância, objeto material, experiência, evento, causalidade, realidade, etc. Já para a Ciência ficaria o encargo de lidar com conceitos mais sutis, em decorrência da própria sofisticação progressiva das teorias científicas - como talvez seja o caso da Taxinomia, que mencionei acima.

VI - Considerações Finais

No início deste texto me propus a falar sobre o campo de atuação da Filosofia, e sobre seu método. Quanto ao primeiro, penso ter alcançado meus objetivos. Quanto ao segundo, posso dizer algumas coisas, mas acho que a melhor forma de compreender o método filosófico, é fazendo Filosofia (por exemplo, lendo este texto e apontando falhas e acertos). Posso chamar tal método de análise conceitual, sendo importante ter em mente o que são conceitos, que, como deixei transparecer, não são entidades de esferas ontológicas diferentes, como o reino das Ideias Platônicas, e sim palavras com um certo sentido - um uso governado por regras - o que já implica que o método filosófico tem a ver com linguagem. Mas Matemática, Física, etc., também trabalham com conceitos, e com alguma linguagem. Devemos então restringir o termo 'análise', dizendo que ele deve ser tomado como sendo uma atividade de elucidação gramatical, ou seja, algo que visa oferecer uma visão sinóptica das relações entre os conceitos ordinários - que se distinguem dos conceitos técnicos das ciências, e também de alguns conceitos propostos por certos filósofos "revisionistas", que propõe novas normas de representação (4). É por isso que as respostas que nos dá a Filosofia, como a estou encarando, podem parecer muito simples, se comparadas ao que se está acostumado a ler em tratados Metafísicos. Mas elas são, ao mesmo tempo, muito difíceis de se chegar, dada nossa própria natureza humana, que teima em nos empurrar sempre para mais longe de nossas limitações, deixando, como diria Wittgenstein, a linguagem entrar em férias.

Até aqui pode ter ficado a impressão correta de que a Filosofia é um tipo de habilidade, uma habilidade terapêutica, que nos livra de alguns problemas lingüísticos. Mas eu não gostaria que ficasse também a impressão incorreta de que a Filosofia é só isso, ou seja, tem apenas um papel negativo. Após passarmos por tais terapias, e voltarmos ao uso ordinário dos termos, não estamos mais na mesma posição de antes, nós ganhamos um certo plus, um tipo de imunidade às novas doenças, para continuar com a analogia. Isto é o que Wittgenstein chamaria de "visão sinóptica", ou "panorâmica", de nossa rede conceitual. Ou seja, além de usarmos os conceitos de forma correta, nós temos uma certa justificação, que falta ao sujeito que nunca refletiu em tais coisas.

Só para finalizar, penso que posso dar um pouco mais de aceitabilidade à minha tese, mostrando suas conseqüências em relação a um problema que sempre me incomodou, e penso que a muitos dos interessados em Filosofia. É o seguinte: como é que a Filosofia ainda pode girar em torno dos mesmos problemas, a uns dois mil e quinhentos anos? Bom, penso que o leitor irá concordar comigo que, em todos estes anos, a base de nossa linguagem mudou muito pouco. Houve, é claro, o surgimento de muitas novas línguas, e o fim de outras. Mas os conceitos básicos que os gregos utilizavam ainda continuam os mesmos, tanto que podemos, com alguma especialização, traduzir e compreender o que eles pensavam. Sendo assim, os problemas que a linguagem suscita também continuam basicamente os mesmos que afligiam os pré-socráticos, Platão e Aristóteles. Obviamente que existem novos problemas, que são, em grande parte, devidos às novas descobertas científicas, que trazem novos conceitos técnicos, sendo que estes podem acabar sendo confundidos com nossos conceitos ordinários.

Poder-se-ia então querer saber se é possível acabar com tais problemas de uma vez, dada a aceitação do papel da Filosofia que propus. Bem, minha resposta, enquanto filósofo, é que tal possibilidade existe, mas sobre se irá ou não se tornar uma efetividade, isso eu não posso responder filosoficamente, pois não se trata de uma norma, e sim de uma descrição. E o pior, é uma descrição de eventos futuros! Deixemos isso para os futurólogos... (5)

Referências:
Baker, G. and Hacker, P. M. S., 1980, Wittgenstein - Understanding and meaning, an analytical Commentary on the Philosophical Investigations, vol.1. Oxford, Blackwell. Glock, H. J. 1998, Dicionário Wittgesntein, Rio de Janeiro, RJ, Brasil, Jorge Zahar Editor (esp. verbete Filosofia).
Strawson, P. F. 1971, Individuals: An Essay in Descriptive Metaphysics, Londres, Methuen (introdução).
Wittgenstein, L. 1963, Philosophical Investigations, traduzido por G.E.M. Anscombe, Oxford, Basil Blackwell.

Notas:
(1) Devo deixar claro que não quero aqui me comprometer com questões doxásticas sobre o que exatamente Wittgenstein ou qualquer outro wittgensteiniano sustentaria. Eu apenas estou utilizando tais concepções, da forma que as interpreto, como pontos de partida para minha própria reflexão. Isso é suficiente para que nenhum bônus desmerecido me seja dado, bem como para que nenhum ônus seja injustamente atribuído a outros que não eu.
(2) Na verdade, pelas informações que chegaram a meus ouvidos, existe mesmo um problema, atualmente, no âmbito da Biologia, sobre quais devem ser as bases para a Taxinomia dos objetos biológicos, se genética ou morfológica.
(3) Na verdade estas são apenas caricaturas. Penso que, se interpretadas de uma forma a ser apresentada na seqüência (que não como enunciados hiperfísicos, sobre uma essência da realidade), tais afirmações, e tais filósofos, poderiam mesmo nos ajudar.
(4) A distinção de que faço uso aqui entre filosofia "descritiva" e "revisionária" é apresentadas por Strawson, na introdução de seu livro Individuals.
(5) Gostaria de agradecer a todos os colegas que direta ou indiretamente auxiliaram na confecção deste texto, especialmente ao professor André Klaudat, tanto pelos conselhos sobre o conteúdo quanto pelo constante incentivo.